Durante 80 anos o mundo foi
moldado pelas relações EUA-
URSS.
Depois da II Guerra Mundial e, em todo seu
origem à chamada período Guerra Fria, até
ao início da década de 1990, em se que
registaram dois marcos históricos: a queda
do muro
de Berlim (1989) e o desaparecimento
da UniãoSoviética (1991).
O mundo mudou, mas
os europeus não
quiseram mudar ou não se aperceberam
das inevitáveis mudanças em curso.
Com efeito,
na sequência dos acontecimentos
referenciados e sem prejuízo da
presidência
Biden, que pretendia dar a ilusão de
continuidade com um mundo que havia
cessado de existir, Donald Trump reemerge:
os norte-americanos passaram a olhar para
o umbigo, deixaram de se assumir
como os
líderes do mundo e, nesta ordem de ideias, a
pax americana deixou de estar garantida.
Os europeus foram, assim, obrigados a sair
da sua zona de conforto e entraram em pânico,
porque, alegadamente, são incapazes
de
solucionarem os problemas de segurança e
defesa do seu próprio continente.
Em
Washington, a nova administração chega
à conclusão de que a situação da Ucrânia se
encontra ou num impasse, ou numa guerra de
atrito de longa duração em que a
Rússia
beneficia de óbvias vantagens e quer encontrar
uma saída, no quadro de uma solução
de paz
duradoura, tão rápido quanto
possível (aliás,
Trump e os seus fiéis disseram-no bastas vezes
antes e durante a campanha
eleitoral; por
conseguinte, não existia aqui qualquer efeito
surpresa). Para Kiev, a situação é desesperada,
mas tentou sempre escamoteá-la. Ora, ao longo
de 3 anos, os europeus e a equipa de
Biden,
nada fizeram na busca pela paz possível, pelo
contrário, proclamaram aos 4 ventos a sua
política belicista. Ao verem com grande sofrimento
e sacrifício do povo ucraniano.
Vejamos a situação
tal e qual se nos apresenta:
a Rússia não conseguiu alcançar os
seus
objectivos, conseguindo, porém, algumas
vantagens territoriais, apesar de uma
performance militar relativamente medíocre,
mas sempre na estratégia da contínua guerra
de atrito. A Ucrânia também não alcançou os
seus objectivos (a expulsão dos russos do seu
território), todavia, conseguiu, verdade seja
dita, resistir, a um preço altíssimo em termos
de perdas humanas e materiais e com
um
quadro de derrota militar na linha do
horizonte, a longo prazo. Está-se, pois, perante
um impasse, com vantagem para o lado russo e,
nesta ordem de ideias, tudo recomendaria – o
próprio bom senso mais elementar
aponta nesse
sentido – a que se encetassem
negociações de
imediato. As advertências de ordem moral, as
violações do direito internacional, as
recriminações históricas, recentes ou pretéritas,
de nada servem: interessa , isso
sim, é a
situação no terreno e a realpolitik. As guerras
terminam com a vitória de uma das
partes
ou com negociações. Não existem terceiras
vias. Cabe aos responsáveis políticos dos
países avaliarem a situação, tendo
designadamente em conta os respectivos
interesses nacionais e o desgaste e sofrimento
das populações que representam. Seria de uma
irresponsabilidade criminosa
que o não fizessem.
Os EUA
compreenderam perfeitamente que a
guerra havia chegado a um impasse ou a um
prolongamento insustentável para a parte
ucraniana, o que, aliás, era manifestamente
óbvio aos olhos de qualquer observador, mas
não o era para os sábios e preclaros líderes
europeus e para a anterior administração
norte-americana. Mais. Washington também
compreendeu que:
a) A NATO era
obsoleta,
b) Os
Estados-nações da Europa competiam,
em permanência, uns com os outros e não
existia (nem existe) consenso em termos de
política externa.
c) A ligação
da Europa à Rússia havia sido
rompida e caberia aos líderes
europeus
restabelecê-la.
No novo
enquadramento da política
transacional externa dos EUA pretende-se
alcançar a paz a troco de qualquer outra coisa,
neste caso os minerais e terras
raras da Ucrânia.
Estratégia do vendedor de tapetes? Talvez, mas
é uma proposta que está em cima da
mesa e há
que tomá-la em consideração.
Money talks and bullshit walks
Em rigor, a
frase é intraduzível, mas ,numa
versão livre e sem adulterar o sentido, podemos
dizer que “o dinheiro fala, as tretas e a conversa
fiada ambulam.” Por outras palavras,
significa
que o dinheiro tem uma influência poderosa e
pode muitas vezes determinar os resultados, ao
passo que a conversa fiada ou a falta de
sinceridade são menos eficazes e podem ser
ignoradas. Essencialmente, sugere que os
recursos financeiros podem facilitar a cação e
os resultados, ao passo que meras palavras ou
promessas sem apoio não são levadas a sério.
É frequentemente utilizado
para realçar a
importância dos resultados tangíveis em
detrimento da mera retórica.
Foi o alcance
desta frase que Zelensky e os
europeus não perceberam.
No fundo,
para os Estados Unidos, a Ucrânia é
um caso menor, mas para a Europa, em especial
para o Centro e Leste europeu, é uma questão
da maior relevância porque se trata de um Estado
vizinho e, com fundamento ou sem ele,
a Rússia
é uma ameaça.
A este
respeito, há que salientar que a geopolítica
é dura e não se compadece com a moralidade, mas
antes com o que se pode e deve
fazer. É
precisamente este ponto que Zelensky e a Europa
não quiseram perceber, porque, com altos
e baixos,
avanços e recuos, a posição dos
Estados Unidos,
ao longo de muitas e muitas décadas, não se alterou.
Era conjecturável. Todavia, no quadro vigente da
Nova Ordem Mundial, não é de todo em todo
previsível e, além disso, está-se perante uma
política transacional,
isolacionista e matter of fact
. Logo, money talks e a retórica (bullshit walks) é o
que
é e vale o que vale.
Fim da guerra fria?
A guerra fria
acabou definitivamente na Ucrânia,
mas os europeus, presos a estruturas
mentais de
há 30 ou 40 anos, não se deram conta
disso e
optaram, de certo modo, por lhe dar continuidade.
Assim, a
Europa andou a hostilizar a Rússia e de
mãos dadas com os Estados Unidos de Biden a
incentivar uma política belicista em vez de
realisticamente pensar numa solução de paz que
se impunha.
A Europa
nunca soube o que é que realmente
queria da guerra na Ucrânia. Aparentemente,
pretendia por via indirecta prolongar o conflito,
a fim de enfraquecer a Rússia. Por
seu turno,
Kiev visava dilatar o impasse, beneficiando do
apoio militar e material norte-americano e
europeu. Só que, agora, o primeiro falha – e é
vital – e o segundo é insuficiente.
Nesta ordem
de ideias e nas actuais
circunstâncias,
a Europa, cometeu um erro ainda mais
perigoso e grave iludindo-se ao pensar que
se pode defender sozinha sem os
Estados
Unidos.
A Europa pode
sonhar com autonomia
estratégica, mas a realidade é que não tem os
meios militares para desafiar o
plano de paz
de Trump para a Ucrânia. Esta é a verdade
dos factos e não há volta a dar-lhe.
Acresce que
os europeus, sobretudo os que
orbitam na vizinhança da Rússia, tem um
pavor irracional – eu diria, infantil -, daquele
país, porque a História pode repetir-se: a Rússia
dos czares, dos sovietes ou de Putin quer-nos
engolir a todos. Valha-nos Nossa Senhora da
Agrela!
De tudo o que
antecede, vou tentar ser mais
claro, com uma pequena narrativa metafórica:
o capuchinho vermelho vai levar os doces à
avozinha, mas tem de atravessar a floresta e o
lobo mau está à espreita. O capuchinho vermelho
espera que o caçador esteja por lá
com a sua
espingarda para a proteger. O capuchinho
vermelho tem medo do escuro e da floresta, mas,
entretanto, o caçador, desiludido
com a menina
e as suas histórias, foi-se embora. O capuchinho
vermelho, com razão ou sem ela,
receia o lobo
mau, mas não convenceu o caçador a ficar. E,
agora, o que é que faço?
Nesta
condições, entramos no subconsciente
colectivo de uma boa parte da Europa e dos
europeus e, neste particular, a razão e o bom
senso não estão propriamente na ordem do dia.
Negociar ou não negociar e negociar o quê
exactamente?
Pretende-se
negociar um acordo global de paz
que ponha definitivamente fim à
guerra e que
confira as necessárias garantias de
segurança
ou um cessar-fogo temporário e depois logo se
vê?
A suposta entente franco-britânica,
dissonâncias
menores à parte, pretende um
pré-acordo de
cessar-fogo de um mês, em que as hostilidades
por mar e ar, mas não as terrestres, são
suspensas e tropas daqueles dois países e
eventualmente de outros vigiarão e
monitorizarão aquela trégua. É por demais
evidente que para Moscovo todo este plano é
descabido e, por isso mesmo, inaceitável.
Leia-se, tropas de países NATO no interior
da Ucrânia é um non starter negocial que nunca
poderia ser invocado. Elementar, meu caro
Watson, elementar!
Mas é preciso
vermos o quadro como ele deve
ser visto, centrando-nos apenas na
UE (a que
o Reino Unido não pertence):
• A Europa
tem manifestas divisões no seu seio,
em que os interesses dos diferentes Estados
não coincidem (com efeito, Hungria, Eslováquia,
Polónia e Itália possuem agendas próprias em
matéria de política externa e de segurança de
que não abdicam);
• A
burocratização e a paralisia institucional
dificultam qualquer política comum,
além
disso, mesmo que se concretizasse, seria sempre
diluída pela regra do menor
denominador
comum;
• A estagnação
económica, para além de
problemas sociais e políticos(v.g. a imigração)
concentram a atenção dos europeus e impactam
no seu quotidiano.
A Europa, se
deseja participar no processo de
negociações, precisa de apresentar
propostas
alinhadas com os interesses da Rússia e dos
Estados Unidos. Em Londres, a primeira-
ministra italiana, Giorgia Meloni, destacou,
aberta e pragmaticamente, a
importância da
unidade do Ocidente e a necessidade
de evitar
a fragmentação, propondo uma cimeira
entre
os líderes europeus e os EUA para fortalecer as
relações, que foram afetadas pela
guerra na
Ucrânia.
Além disso, é
digno de nota, ter a PM italiana
sido a única entre os líderes europeus presentes
na cimeira de Londres que não manifestou apoio
a Volodymyr Zelensky após sua a
discussão
acalorada na Casa Branca com Donald Trump.
Registe-se que Viktór Órban e Robert Fico,
respetivamente Primeiros-ministros
da Hungria
e da Eslováquia, também não o
fizeram.
De realçar
ainda, que Mark Rute, o Secretário-
geral da NATO, tenha sugerido a Zelensky que
refaça a relação com Washington. Trata-se de
uma mera questão de bom senso, mas imperativa
no momento actual.
Entretanto,
como retaliação contra Zelensky, T
rump, de uma forma drástica, congelou toda a
ajuda militar à Ucrânia, mesmo a que se encontra
em trânsito.
Num
volte-face aguardado, Volodomyr Zelensky
fez marcha atrás e deu o dito por não dito, tentando
reparar os danos (que não são poucos), publicando
uma retratação nas redes sociais. Era preciso chegar
a isto? O presidente ucraniano
manifesta, deste
modo, o seu firme compromisso com a paz
de Zelensky.
Europa sabiam que o momento da
verdade havia
chegado. Terá sido preciso uma peixeirada na Casa
Branca para se convencerem da
realidade dura,
nua e crua dos factos?
Sem os
Estados Unidos, a Europa não vai lá e a
Ucrânia não consegue negociar o que quer que seja,
o que só seria possível numa situação de impasse e
não numa situação de derrota.
Conclusões?
Donald Trump
não cedeu às ambições irrealistas
que teriam sido incutidas aos ucranianos pelo
Ocidente. O presidente norte-americano entende
que apoiar tais ambições poderia levar a um conflito
global, incluindo a possibilidade de
uma Terceira
Guerra Mundial. Essa visão parece alinhada com a
retórica de Trump de evitar
envolvimentos militares
directos e custosos, preferindo uma
abordagem mais
pragmática ou isolacionista.
As eventuais
alianças entre a Rússia, China, Irão e
Coreia do Norte suscitam um factor acrescido de
preocupação num cenário de escalada do conflito.
Essas alianças são frequentemente citadas como
um contrapeso ao poder
ocidental, o que reforça a
ideia de que um conflito na Ucrânia
poderia ter
ramificações globais.
Por seu turno
Zelensky, sem embargo do contexto
mais amplo da invasão russa da Ucrânia e a
resistência ucraniana como uma luta pela soberania
e integridade territorial, aparenta não estar
predisposto a negociar a paz e de estar,
inadvertidamente, a criar condições para uma
escalada perigosa do conflito. É neste sentido que
se deve interpretar a cena grotesca
e tempestuosa
de há dias na Casa Branca, em que Trump deixou
claro a Zelensky que, de momento, este não tinha
vantagens (“You dont’t have all the cards!”) e
estava a jogar com as vidas de milhões de pessoas,
criando o cenário para um
alastramento perigoso
da guerra. Zelensky recusou-se a aceitar e afirmou
que não jogava cartas…
É por demais
óbvio que a Ucrânia não conseguiria
militarmente vencer a Rússia sem a
intervenção
directa dos Estados Unidos, algo que todos os líderes
europeus sabiam, mas mesmo assim,
num
intransigente espírito belicista decidiram continuar
a apoiar o conflito. Mas durante quanto mais tempo,
com quantos mais mortos e com muito maior
destruição material?
A Europa, desarmada
e em busca de uma
identidade perdida, sem valores, sem
referências e sem autoridade moral, começou
a trilhar uma via diplomática de última hora
sem qualquer unidade, coesão e planeamento
em relação à guerra na Ucrânia.
Independentemente
das nossas ideias e da nossa
vontade, a Nova Ordem Mundial está em curso.