O que morre primeiro? O homem
ou o mundo ao redor?
Imanuel Antony morreu antes do seu
coração parar de
bater.Teve fome. Teve
sede.E ninguémo viu
morrer.
Morreu. Não de doença, não de fome.
Morreu de
esquecimento. Qual a verdadeira
morte? A do último suspiro ou a do
instante em que
ninguém percebe a sua
falta?
Ele moreu sozinho. Um dia, todos nós
estaremos solitários
no momento do
encontro com o nosso
destino final.
É inevitável!
Mas para ele a morte chegou de um jeito
mais lento, mais esquecido e doloroso.
Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo
ligou.
Nenhum familiar estranhou a ausência.
A, sua esposa, morreu primeiro, de uma
doença rara,
transmitida pelo pó
das fezes de roedores.
Pouco antes ela foi à farmácia e levou o
cãozinho ao
veterinário. Não sabia que
aquelas eram suas
horas finais, que seria
a batida por algo
mortal carregado pela
poeira invisível, das coisas que existem
e não se veem.
Um dia ela estava ali,
no outro não. Talvez
tenha passado a manhã
dobrando roupas.
Talvez tenha planeado
o jantar. E então
veio a febre, o cansaço, o nada. De repente,
o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo
para despedidas e
providências.
Ele ficou sozinho, sem entender. Por sete
longos dias, perambulou
pela casa sem saber
o que fazer,sem lembrar como agir. Aos 90
anos, o Alzheimer já havia apagado parte
de sua memória e a capacidade de pedir
ajuda.
Talvez tenha, no fundo
a mente, sentido o
vazio.
Talvez tenha chamado pela mulher,
Mas isso não se soube
ou saberá, porque
ninguém estava lá.inguém
veio.
O que acontece quando um homem se torna
invisível?Imanuel foi
um dos maiores atores de
Hollywood.
Um ícone. O rosto
duro, a voz grave, o talento
bruto. Interpretou
presidentes, assassinos,
heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar,
amado pelo público,
respeitado pelos colegas.
No auge da carreira,
era forte, imbatível, voz
que não tremia. Mas o que isso significa
quando se tem 95 anos
e se está sozinho e
desamparado em casa?
Quando a memória se
apagou, o corpo está
fragilizado e os amados
ausentes?
A fama é um engano que o tempo desfaz.
O que resta quando o telefone para de tocar?
Quando as pessoas
presumem que você não
quer ser incomodado?
Quando a casa
grande e confortável
se torna um território
de esquecimento?
De que vale um nome célebre quando se
está idoso, doente e
só?
A solidão não chega de repente. Ela começa
no dia em que ninguém
mais pergunta como
você está. No dia em
que as pessoas supoem
que você já tem tudo,
que está bem. O
esquecimento vem
devagar. Constrói-se aos
poucos, como uma casa onde ninguém entra.
Tony – que não se dava ares de celebridade
– buscou se distanciar de Hollywood.
Escolheu o isolamento,
apostou que a esposa,
trinta anos mais
jovem, o assistiria até o final.
Acreditou que não
precisava de um cuidador,
enfermeiro ou outros
empregados. Porém, o
que durante muito
tempo foi bênção,
converteu-se em
armadilha. A casa grande
ficou menor. O silêncio ficou maior.
A porta ficou fechada.Ninguém bateu.
E o homem um dia visto por milhões, partiu
sem que ninguém olhasse.
A solidão dos que vivem muito por vezes me
assusta. A velhice é um país estrangeiro e
inóspito. Ninguém quer
visitá-lo sem
garantias e medidas de
segurança, mas
poucos são os que usam
pensar no que
acontecerá quando os dias se tornarem
longos demais e as
noites silenciosas
em excesso. Raros são
os que tomam
decisões conscientes para que a vida não
se dissolva quando não
houver mais
reuniões de trabalho, estreias,
jantares
com amigos, idas ao
cinema.
Recolho em mim cada lição dessa tragédia:
morrer é um caminho sem testemunhas; a
fama, uma ilusão que
se desmancha na
poeira; o sucesso, um
eco que não se
sustenta; e escolhas para
a velhice devem
considerar vários
cenários,
pois a vida é mutável e imprevisível. Ela nos
surpreende em uma esquina qualquer, com a
sua maleta
transbordante de espantos.
No fim, somos casas sem luz se não há quem
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