quarta-feira, 2 de abril de 2025

O que morre primeiro? O homem

ou o mundo ao redor?

Imanuel Antony morreu antes do seu

coração parar de bater.Teve fome. Teve

sede.E ninguémo viu morrer.
 Morreu. Não de doença, não de fome.

Morreu de esquecimento. Qual a verdadeira

 morte? A do último suspiro ou a do

instante em que ninguém percebe a sua

 falta?
Ele moreu sozinho. Um dia, todos nós

estaremos solitários no momento do

encontro com o nosso destino final.

 É inevitável!

 Mas para ele a morte chegou de um jeito

 mais lento, mais esquecido e doloroso.

 Ninguém bateu à porta. Nenhum amigo

 ligou.

 Nenhum familiar estranhou a ausência.
A, sua esposa, morreu primeiro, de uma

doença rara,

transmitida pelo pó das fezes de roedores.

 Pouco antes ela foi à farmácia e levou o

cãozinho ao veterinário. Não sabia que

aquelas eram suas horas finais, que seria

a batida por algo mortal carregado pela

 poeira invisível, das coisas que existem

 e não se veem.

Um dia ela estava ali, no outro não. Talvez

tenha passado a manhã dobrando roupas.

Talvez tenha planeado o jantar. E então

 veio a febre, o cansaço, o nada. De repente,

 o fim. Fulminante, sem aviso, sem tempo

para despedidas e providências.
Ele ficou sozinho, sem entender. Por sete

longos dias, perambulou pela casa sem saber

 o que fazer,sem lembrar como agir. Aos 90

 anos, o Alzheimer já havia apagado parte

 de sua memória e a capacidade de pedir

ajuda.

Talvez tenha, no fundo a mente, sentido o

vazio.

Talvez tenha chamado  pela mulher,

Mas isso não se soube ou saberá, porque

ninguém estava lá.inguém veio.
O que acontece quando um homem se torna

invisível?Imanuel foi um dos maiores atores de

 Hollywood.

Um ícone. O rosto duro, a voz grave, o talento

bruto. Interpretou presidentes, assassinos,

 heróis. Foi duas vezes vencedor do Oscar,

amado pelo público, respeitado pelos colegas.

No auge da carreira, era forte, imbatível, voz

 que não tremia. Mas o que isso significa

quando se tem 95 anos e se está sozinho e

desamparado em casa? Quando a memória se

apagou, o corpo está fragilizado e os amados

 ausentes?
A fama é um engano que o tempo desfaz.
O que resta quando o telefone para de tocar?

Quando as pessoas presumem que você não

quer ser incomodado? Quando a casa

grande e confortável se torna um território

 de esquecimento?
De que vale um nome célebre quando se

está idoso, doente e só?
A solidão não chega de repente. Ela começa

no dia em que ninguém mais pergunta como

você está. No dia em que as pessoas supoem

que você já tem tudo, que está bem. O

esquecimento vem devagar. Constrói-se aos

 poucos, como uma casa onde ninguém entra.
Tony – que não se dava ares de celebridade

 – buscou se distanciar de Hollywood.

Escolheu o isolamento, apostou que a esposa,

trinta anos mais jovem, o assistiria até o final.

Acreditou que não precisava de um cuidador,

enfermeiro ou outros empregados. Porém, o

que durante muito tempo foi bênção,

converteu-se em armadilha. A casa grande

 ficou menor. O silêncio ficou maior.

 A porta ficou fechada.Ninguém bateu.
E o homem um dia visto por milhões, partiu

 sem que ninguém olhasse.
A solidão dos que vivem muito por vezes me

 assusta. A velhice é um país estrangeiro e

inóspito. Ninguém quer visitá-lo sem

garantias e medidas de segurança, mas

poucos são os que usam pensar no que

 acontecerá quando os dias se tornarem

longos demais e as noites silenciosas

em excesso. Raros são os que tomam

 decisões conscientes para que a vida não

se dissolva quando não houver mais

reuniões de trabalho, estreias, jantares

com amigos, idas ao cinema.
Recolho em mim cada lição dessa tragédia:

 morrer é um caminho sem testemunhas; a

fama, uma ilusão que se desmancha na

poeira; o sucesso, um eco que não se

sustenta; e escolhas para a velhice devem

considerar vários cenários,

 pois a vida é mutável e imprevisível. Ela nos

 surpreende em uma esquina qualquer, com a

sua maleta transbordante de espantos.
No fim, somos casas sem luz se não há quem

bata à porta

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