quarta-feira, 2 de abril de 2025

 Durante 80 anos o mundo foi 

moldado pelas relações EUA-

URSS.

 

Depois da II Guerra Mundial e, em todo  seu 

origem à chamada período Guerra Fria, até 

ao início da década de 1990, em se que 

registaram dois marcos históricos: a queda 

do muro de Berlim (1989) e o desaparecimento

 da UniãoSoviética (1991).

O mundo mudou, mas os europeus não 

quiseram mudar ou não se aperceberam 

das inevitáveis mudanças em curso.

Com efeito, na sequência dos acontecimentos

 referenciados e sem prejuízo da presidência

Biden, que pretendia dar a ilusão de

continuidade com um mundo que havia

cessado de existir, Donald Trump reemerge:

os norte-americanos passaram a olhar para

 o umbigo, deixaram de se assumir como os

líderes do mundo e, nesta ordem de ideias, a

 pax americana deixou de estar garantida.

Os europeus foram, assim, obrigados a sair

da sua zona de conforto e entraram em pânico,

 porque, alegadamente, são incapazes de

solucionarem os problemas de segurança e

defesa do seu próprio continente.
Em Washington, a nova administração chega

à conclusão de que a situação da Ucrânia se

encontra ou num impasse, ou numa guerra de

 atrito de longa duração em que a Rússia

beneficia de óbvias vantagens  e quer encontrar

 uma saída, no quadro de uma solução de paz

 duradoura, tão rápido quanto possível (aliás,

Trump e os seus fiéis disseram-no bastas vezes

 antes e durante a campanha eleitoral; por

conseguinte, não existia aqui qualquer efeito

surpresa). Para Kiev, a situação é desesperada,

mas tentou sempre escamoteá-la. Ora, ao longo

 de 3 anos, os europeus e a equipa de Biden,

nada fizeram na busca pela paz possível, pelo

contrário, proclamaram aos 4 ventos a sua

política belicista. Ao verem com grande sofrimento

e sacrifício do povo ucraniano.
Vejamos a situação tal e qual se nos apresenta:

 a Rússia não conseguiu alcançar os seus

objectivos, conseguindo, porém, algumas

vantagens territoriais, apesar de uma 

performance militar relativamente medíocre,

mas sempre na estratégia da contínua guerra

de atrito. A Ucrânia também não alcançou os

seus objectivos (a expulsão dos russos do seu

território), todavia, conseguiu, verdade seja

dita, resistir, a um preço altíssimo em termos

 de perdas humanas e materiais e com um

quadro de derrota militar na linha do

horizonte, a longo prazo. Está-se, pois, perante

um impasse, com vantagem para o lado russo e,

nesta ordem de ideias, tudo recomendaria – o

 próprio bom senso mais elementar aponta nesse

 sentido – a que se encetassem negociações de

imediato. As advertências de ordem moral, as

violações do direito internacional, as

recriminações históricas, recentes ou pretéritas,

 de nada servem: interessa , isso sim, é a

situação no terreno e a realpolitik. As guerras

 terminam com a vitória de uma das partes

ou com negociações. Não existem terceiras

vias. Cabe aos responsáveis políticos dos

países avaliarem a situação, tendo

designadamente em conta os respectivos

interesses nacionais e o desgaste e sofrimento

das populações que representam. Seria de uma

 irresponsabilidade criminosa que o não fizessem.
Os EUA compreenderam perfeitamente que a

guerra havia chegado a um impasse ou a um

prolongamento insustentável para a parte

ucraniana, o que, aliás, era manifestamente

óbvio aos olhos de qualquer observador, mas

não o era para os sábios e preclaros líderes

europeus e para a anterior administração

norte-americana. Mais. Washington também

 compreendeu que:
a) A NATO era obsoleta,
b) Os Estados-nações da Europa competiam,

em permanência, uns com os outros e não

existia (nem existe) consenso em termos de

política externa.
c) A ligação da Europa à Rússia havia sido

 rompida e caberia aos líderes europeus

restabelecê-la.
No novo enquadramento da política

transacional externa dos EUA pretende-se

alcançar a paz a troco de qualquer outra coisa,

 neste caso os minerais e terras raras da Ucrânia.

Estratégia do vendedor de tapetes? Talvez, mas

 é uma proposta que está em cima da mesa e há

 que tomá-la em consideração.
 Money talks and bullshit walks
Em rigor, a frase é intraduzível, mas ,numa

versão livre e sem adulterar o sentido, podemos

dizer que “o dinheiro fala, as tretas e a conversa

 fiada ambulam.” Por outras palavras, significa

que o dinheiro tem uma influência poderosa e

pode muitas vezes determinar os resultados, ao

passo que a conversa fiada ou a falta de

sinceridade são menos eficazes e podem ser

ignoradas. Essencialmente, sugere que os

recursos financeiros podem facilitar a cação e

os resultados, ao passo que meras palavras ou

promessas sem apoio não são levadas a sério.

 É frequentemente utilizado para realçar a

importância dos resultados tangíveis em

detrimento da mera retórica.
Foi o alcance desta frase que Zelensky e os

 europeus não perceberam.
No fundo, para os Estados Unidos, a Ucrânia é

um caso menor, mas para a Europa, em especial

para o Centro e Leste europeu, é uma questão

da maior relevância porque se trata de um Estado

 vizinho e, com fundamento ou sem ele, a Rússia

é uma ameaça.
A este respeito, há que salientar que a geopolítica

é dura e não se compadece com a moralidade, mas

 antes com o que se pode e deve fazer. É

precisamente este ponto que Zelensky e a Europa

 não quiseram perceber, porque, com altos e baixos,

 avanços e recuos, a posição dos Estados Unidos,

ao longo de muitas e muitas décadas, não se alterou.

Era conjecturável. Todavia, no quadro vigente da

Nova Ordem Mundial, não é de todo em todo

previsível e, além disso, está-se perante uma 

política transacional, isolacionista e matter of fact

. Logo, money talks e a retórica (bullshit walks) é o

 que é e vale o que vale.

 Fim da guerra fria?
A guerra fria acabou definitivamente na Ucrânia,

 mas os europeus, presos a estruturas mentais de

 há 30 ou 40 anos, não se deram conta disso e

optaram, de certo modo, por lhe dar continuidade.
Assim, a Europa andou a hostilizar a Rússia e de

mãos dadas com os Estados Unidos de Biden a

incentivar uma política belicista em vez de

realisticamente pensar numa solução de paz que

se impunha.
A Europa nunca soube o que é que realmente

queria da guerra na Ucrânia. Aparentemente,

pretendia por via indirecta prolongar o conflito,

 a fim de enfraquecer a Rússia. Por seu turno,

Kiev visava dilatar o impasse, beneficiando do

apoio militar e material norte-americano e

europeu. Só que, agora, o primeiro falha – e é

vital – e o segundo é insuficiente.
Nesta ordem de ideias e nas actuais

circunstâncias,

a Europa, cometeu um erro ainda mais

perigoso e grave iludindo-se ao pensar que

 se pode defender sozinha sem os Estados

Unidos.
A Europa pode sonhar com autonomia

estratégica, mas a realidade é que não tem os

 meios militares para desafiar o plano de paz

de Trump para a Ucrânia. Esta é a verdade

dos factos e não há volta a dar-lhe.
Acresce que os europeus, sobretudo os que

orbitam na vizinhança da Rússia, tem um

pavor irracional – eu diria, infantil -, daquele

país, porque a História pode repetir-se: a Rússia

dos czares, dos sovietes ou de Putin quer-nos

engolir a todos. Valha-nos Nossa Senhora da

Agrela!
De tudo o que antecede, vou tentar ser mais

claro, com uma pequena narrativa metafórica:

o capuchinho vermelho vai levar os doces à

avozinha, mas tem de atravessar a floresta e o

lobo mau está à espreita. O capuchinho vermelho

 espera que o caçador esteja por lá com a sua

espingarda para a proteger. O capuchinho

vermelho tem medo do escuro e da floresta, mas,

 entretanto, o caçador, desiludido com a menina

e as suas histórias, foi-se embora. O capuchinho

 vermelho, com razão ou sem ela, receia o lobo

mau, mas não convenceu o caçador a ficar. E,

agora, o que é que faço?
Nesta condições, entramos no subconsciente

colectivo de uma boa parte da Europa e dos

europeus e, neste particular, a razão e o bom

senso não estão propriamente na ordem do dia.
 Negociar ou não negociar e negociar o quê

 

exactamente?
Pretende-se negociar um acordo global de paz

 que ponha definitivamente fim à guerra e que

 confira as necessárias garantias de segurança

ou um cessar-fogo temporário e depois logo se

vê?
A suposta entente franco-britânica, dissonâncias

 menores à parte, pretende um pré-acordo de

cessar-fogo de um mês, em que as hostilidades

por mar e ar, mas não as terrestres, são

suspensas e tropas daqueles dois países e

eventualmente de outros vigiarão e

monitorizarão aquela trégua. É por demais

evidente que para Moscovo todo este plano é

descabido e, por isso mesmo, inaceitável.

Leia-se, tropas de países NATO no interior

da Ucrânia é um non starter negocial que nunca

poderia ser invocado. Elementar, meu caro

Watson, elementar!
Mas é preciso vermos o quadro como ele deve

 ser visto, centrando-nos apenas na UE (a que

o Reino Unido não pertence):
• A Europa tem manifestas divisões no seu seio,

em que os interesses dos diferentes Estados

não coincidem (com efeito, Hungria, Eslováquia,

Polónia e Itália possuem agendas próprias em

matéria de política externa e de segurança de

que não abdicam);
• A burocratização e a paralisia institucional

 dificultam qualquer política comum, além

disso, mesmo que se concretizasse, seria sempre

 diluída pela regra do menor denominador

comum;
• A estagnação económica, para além de

problemas sociais e políticos(v.g. a imigração)

concentram a atenção dos europeus e impactam

no seu quotidiano.
A Europa, se deseja participar no processo de

 negociações, precisa de apresentar propostas

alinhadas com os interesses da Rússia e dos

Estados Unidos. Em Londres, a primeira-

ministra italiana, Giorgia Meloni, destacou,

 aberta e pragmaticamente, a importância da

 unidade do Ocidente e a necessidade de evitar

 a fragmentação, propondo uma cimeira entre

os líderes europeus e os EUA para fortalecer as

 relações, que foram afetadas pela guerra na

Ucrânia.
Além disso, é digno de nota, ter a PM italiana

sido a única entre os líderes europeus presentes

na cimeira de Londres que não manifestou apoio

 a Volodymyr Zelensky após sua a discussão

acalorada na Casa Branca com Donald Trump.

Registe-se que Viktór  Órban e Robert Fico,

 respetivamente Primeiros-ministros da Hungria

 e da Eslováquia, também não o fizeram.
De realçar ainda, que Mark Rute, o Secretário-

geral da NATO, tenha sugerido a Zelensky que

refaça a relação com Washington. Trata-se de

uma mera questão de bom senso, mas imperativa

 no momento actual.
Entretanto, como retaliação contra Zelensky, T

rump, de uma forma drástica, congelou toda a

ajuda militar à Ucrânia, mesmo a que se encontra

em trânsito.
Num volte-face aguardado, Volodomyr Zelensky

fez marcha atrás e deu o dito por não dito, tentando

reparar os danos (que não são poucos), publicando

uma retratação nas redes sociais. Era preciso chegar

 a isto? O presidente ucraniano manifesta, deste

 modo, o seu firme compromisso com a paz

de Zelensky.

 Europa sabiam que o momento da verdade havia

chegado. Terá sido preciso uma peixeirada na Casa

 Branca para se convencerem da realidade dura,

nua e crua dos factos?
Sem os Estados Unidos, a Europa não vai lá e a

Ucrânia não consegue negociar o que quer que seja,

o que só seria possível numa situação de impasse e

não numa situação de derrota.
 Conclusões?
Donald Trump não cedeu às ambições irrealistas

que teriam sido incutidas aos ucranianos pelo

Ocidente. O presidente norte-americano entende

que apoiar tais ambições poderia levar a um conflito

 global, incluindo a possibilidade de uma Terceira

Guerra Mundial. Essa visão parece alinhada com a

 retórica de Trump de evitar envolvimentos militares

 directos e custosos, preferindo uma abordagem mais

 pragmática ou isolacionista.
As eventuais alianças entre a Rússia, China, Irão e

Coreia do Norte suscitam um factor acrescido de

preocupação num cenário de escalada do conflito.

Essas alianças são frequentemente citadas como 

um contrapeso ao poder ocidental, o que reforça a

 ideia de que um conflito na Ucrânia poderia ter

ramificações globais.
Por seu turno Zelensky, sem embargo do contexto

mais amplo da invasão russa da Ucrânia e a

resistência ucraniana como uma luta pela soberania

e integridade territorial, aparenta não estar

predisposto a negociar a paz e de estar,

inadvertidamente, a criar condições para uma

escalada perigosa do conflito. É neste sentido que

 se deve interpretar a cena grotesca e tempestuosa

de há dias na Casa Branca, em que Trump deixou

claro a Zelensky que, de momento, este não tinha

vantagens (“You dont’t have all the cards!”) e

estava a jogar com as vidas de milhões de pessoas,

 criando o cenário para um alastramento perigoso

da guerra. Zelensky recusou-se a aceitar e afirmou

 que não jogava cartas…
É por demais óbvio que a Ucrânia não conseguiria

 militarmente vencer a Rússia sem a intervenção

directa dos Estados Unidos, algo que todos os líderes

 europeus sabiam, mas mesmo assim, num

intransigente espírito belicista decidiram continuar

a apoiar o conflito. Mas durante quanto mais tempo,

com quantos mais mortos e com muito maior

destruição material?
A Europa, desarmada e em busca de uma

 identidade perdida, sem valores, sem

 referências e sem autoridade moral, começou

 a trilhar uma via diplomática de última hora 

sem qualquer unidade, coesão e planeamento 

em relação à guerra na Ucrânia.

Independentemente das nossas ideias e da nossa

vontade, a Nova Ordem Mundial está em curso.

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